Ao ver o derby de Madrid de ontem, não pude deixar de reparar num grande detalhe que decerto chamou a atenção de mais espectadores. Era um derby, e a condição essencial para que seja assim denominado é que exista uma rivalidade histórica entre os 2 clubes e, aqui reside a razão deste post, que essa rivalidade revele equilíbrio entre as equipas. O jogo de ontem entre Real e Atlético de Madrid foi tudo menos equilibrado. Existem muitas razões para que o não tenha sido. O Real tem melhores jogadores, tem melhor treinador, tem muito mais dinheiro e teve muito mais ambição de ganhar que o seu adversário.
O Atlético de Madrid teve um comportamento de equipa pequena. A táctica de Quique, que no ano passado rendeu com doses fabulosas de sorte uma Liga Europa, este ano não consegue fazer descolar o clube da mediocridade, léguas de distância do futebol que este clube costuma apresentar e a léguas de distância dos lugares que costuma ocupar em La Liga. De facto, Forlan e Aguero já não conseguem sozinhos disfarçar os desequilíbrios defensivos de uma equipa que insiste num Perea muito frágil e num meio campo tão mediano (à escala do futebol espanhol) do qual só escapa a intrépida vontade de ganhar de Reyes.
Marcando bem Reyes, e vigiando de perto os avançados, o Atlético não tem mais armas. Quique também não as sabe criar. Tal como qualquer clube pequeno rumou ao Barnabéu para defender e esperar um golpe de sorte, esperar uma noite pouco inspirada do adversário. Não foi um derby. Por culpa de Quique, por culpa da assunção de menoridade frente ao adversário. Isto terá alguma coisa relacionada com o Sporting? A resposta é: tem tudo.
O nosso clube tem hoje ainda alguma capacidade de resistência a todas as manobras, maioritariamente jornalísticas, que adorando vender a “crise” leonina, vão minando palmo a palmo o prestígio e a grandeza do clube. Isto só é possível porque não havendo conquistas, os adeptos estão claramente susceptíveis a alarmes, “fundos de poço”, mensagens apocalípticas. Não penso que o clube esteja realmente bem de saúde, especialmente financeira, onde temos um fosso muito grande que nos distancia de maiores orçamentos dos nossos eternos rivais. Mas ainda não temos a diferença que separou os rivais de Madrid.
Digo ainda, porque não quero caminhemos nesse sentido. Podemos e está ao alcance de um bom corpo de dirigentes e técnicos, reformular a atitude do clube. Até agora temos sido os coitadinhos que não tendo dinheiro, fazem omeletas pequeninas com ovos de pintainho. A primeira pedra da mudança que precisamos é precisamente a mudança de mentalidade e discurso. Aqui há dias, li (penso que no Cacifo do Paulinho) um texto sobre a sapateirização do Sporting. Aplaudo a clarividência da opinião e reforço que para começar a mudar qualquer coisa é preciso deixar de fazer como era feito e não apenas publicitar mais os processos antigos. Como que se falar mais alto fosse resolver os problemas de audição dos adeptos.
Os adeptos não ouvem, não seguem, não apoiam, não compram, porque sabem que estarão a aderir a um processo moribundo, que é estéril e inevitavelmente os deixará órfãos daquilo que lhes prometeram. “Venham ver os jogos!” Para quê? O espectáculo é mau. A equipa tem mais probabilidades de perder. O treinador é desmotivante. Os jogadores não têm talento. Os bilhetes são caros. O estádio é mau e feio. O “Só eu sei porque não fico em casa”…nunca foi tão verdadeiro…de facto é um mistério o porquê de cada cadeira de Alvalade estar ocupada durante os jogos.
Mudar significa dar aos adeptos o que eles merecem, aquilo que é o clube. Uma boa equipa (não significa cara) um bom treinador (gaste-se aqui muito mais do que tem vindo a ser politica do clube) menos marketing (parem de encarar os sportinguistas como apenas consumidores) e mais atenção ao adepto – uma boa politica de preços de bilhetes, as horas e os dias dos jogos, justiça entre sócios e aderentes às Gamebox, condições especiais para os núcleos…há tanto trabalho a fazer.
Mudar significa parar de dar desculpas perante os resultados, ou a embelezar exibições e resultados, parar de medir os orçamentos e olhar para como podemos maximizar o nosso património, a nossa equipa, o nosso prestígio e criar uma nova atitude: vários clubes lutam contra o establishment não tendo as verbas, a dimensão e o status dos seus rivais, mas isso foi sempre um motor para a luta, para o brio, para o orgulho. Nenhum clube é igual a outro e muitas das vezes o que os separa é a convicção e a predisposição para a luta.
No Sporting vejo muita predisposição para a desculpa perante os resultados menos bons, vejo muitas pancadinhas nas próprias costas, muitos bodes expiatórios que impedem que Bettencourt, Paulo Sérgio, Costinha e muitos jogadores assumam o fracasso, mas não para depois baixar os braços, mas sim para entenderem que o estado actual daquilo dizem e pensam está errado. O Sporting não tem tão bons jogadores, tanto dinheiro, não tem tão boa imprensa, mas tem de ganhar, a derrota não é uma opção, não é uma circunstância, é uma derrota. Quem perde, perde e não ganha, não há vitórias morais, não há bolas no poste, não há árbitros nem relvados, há perder e ganhar.
Quem na direcção não for capaz de entender que deve o mesmo aos adeptos do que os dirigentes de Benfica e Porto, não está a fazer nada no clube e deve voltar para os terceiros bancos do país, para as terceiras consultoras, para os terceiros hospitais e empresas privadas. Terceiro não é opção. Esta é a nova atitude.
Até breve.